As ilusões do pós-modernismo – Prefácio

• Por Terry Eagleton em 16 de março de 2008

terry eagletonPrefácio

A palavra pós-modernismo refere-se em geral a uma forma de cultura contemporânea, enquanto o termo pós-modernidade alude a um período histórico específico. Pós-modernidade é uma linha de pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, a idéia de progresso ou emancipação universal, os sistemas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação. Contrariando essas normas do iluminismo, vê o mundo como contingente, gratuito, diverso, instável, imprevisível, um conjunto de culturas ou interpretações desunificadas gerando um certo grau de ceticismo em relação às idiossincrasias e à coerência de identidades. Essa maneira de ver, como sustentam alguns, baseia-se em circunstâncias concretas: ela emerge da mudança histórica ocorrida no Ocidente para uma nova forma de capitalismo ? para o mundo efêmero e descentralizado da tecnologia do consumismo e da indústria cultural, no qual as indústrias de serviços, finanças e informação triunfam sobre a produção tradicional, e a política clássica de classes cede terreno a uma série difusa de “políticas de identidade”. Pós-modernismo é um estilo de cultura que reflete um pouco essa mudança memorável por meio de uma arte superficial, descentrada, infundada, auto-reflexiva, divertida, caudatária, eclética e pluralista, que obscurece as fronteiras entre a cultura “elitista” e a cultura “popular”, bem como entre a arte e a experiência cotidiana. O quão dominante ou disseminada se mostra essa cultura ? se tem acolhimento geral ou constitui apenas um campo restrito da vida contemporânea ? é objeto de controvérsia.

Embora essa distinção entre pós-modernismo e pós-modernidade pareça útil, não lhe dediquei especial atenção neste livro. Optei por adotar o termo mais trivial “pós-modernismo” para abranger as duas coisas, dada a evidente e estreita relação entre elas. Como aqui interessam-me mais as idéias do que a cultura artística, não me detenho em obras de arte isoladas. Tampouco analiso teóricos específicos, o que pode causar estranheza a alguns. Minha preocupação reside menos nas formulações rebuscadas da filosofia pós-moderna do que na cultura, no meio ou mesmo no modo de ver e reagir do pós-modernismo. Tenho em mente menos os vôos filosóficos mais elevados sobre o assunto do que aquilo em que um tipo específico de aluno provavelmente acredita hoje; e embora considere muitas das coisas que eles crêem falsas, tentei dizer isso de uma forma tal que pudesse convencê-los de que não era assim que pensavam originalmente. Ao fazê-lo, acuso vez por outra o pós-modernismo de fabricar alvos imaginários, de caricaturar as posições de seus adversários, acusação esta que bem poderia retirar por conta própria.. Mas isto se dá, em parte, porque aspiro precisamente a essas marcas “populares” do pensamento pós-moderno, e, em parte, porque o pós-modernismo constitui um fenômeno tão híbrido, que qualquer afirmação sobre um aspecto dele quase com certeza não se aplicará a outro. Portantp, pode acontecer de um determinado teórico haver, em sua obra, questionado ou mesmo rejeitado algumas das visões que atribuo ao pós-modernismo de um modo geral; todavia, elas constituem um tipo de sabedoria reconhecida, e nesse sentido não me considero culpado de paródia excessiva. Ao contrário, embora predomine uma análise negativa do tema, tentei admitir o lado bom do pós-modernismo sempre que possível, chamando atenção tanto para seus pontos fortes como para os fracos. Não se trata apenas de se posicionar a favor ou contra o pós-modernismo, conquanto, na minha opinião, haja mais motivos para se opor a ele do que para apoiá-lo. Da mesma forma que se dizer “pós-modernista” não significa unicamente que você abandonou de vez o modernismo, mas que o percorreu à exaustão até atingir uma posição ainda profundamente marcada por ele, deve haver algo como um pré-pós-modernismo, que percorreu todo o pós-modernismo e acabou mais ou menos no ponto de partida, o que de modo algum não significa que não tenha havido mudanças.

Parte da força do pós-modernismo resulta do fato de que ele existe, ainda que, no que tange ao socialismo nos dias de hoje, tal afirmativa se afigure bem mais questionável. Com a devida vênia a Hegel, pareceria agora que o real é irracional, e o racional irreal. Ao longo deste estudo, julguei o pós-modernismo sob uma ótica abertamente socialista; o que não quer dizer, por certo, que o socialismo também não tenha seus problemas. Ao contrário, esta idéia revela-se hoje provavelmente mais importuna e especulativa que em qualquer outro estágio de sua turbulenta carreira. Seria desonestidade intelectual fingir que o marxismo não representa mais uma realidade política atuante, ou que as perspectivas de mudança socialista, pelo menos neste momento, não passam de remotíssimas. Ocorre que, nestas circunstâncias seria bem mais prejudicial que desonesto renunciar à visão de uma sociedade justa e, dessa forma, aquiescer à desordem pavorosa em que se encontra o mundo atual. Não estou propondo, portanto, que tenhamos à mão uma alternativa pronta para o pós-modernismo, mas apenas que podemos fazer muito melhor; e não é preciso ser um socialista convicto, muito menos um marxista devoto, para conceder nisso.

Uma palavra enfim que sirva de consolo aos adversários. Tentei criticar o pós-modernismo sob o aspecto político e teórico, em vez de simplesmente apelar ao senso comum. No entanto, parece-me inevitável que conservadores que invectivam o pós-modernismo por razões que considero as mais indignas endossem alguns dos meus argumentos. Os radicais e os conservadores, afinal de contas, necessariamente compartilham um terreno comum, caso contrário haveria entre eles um conflito sobremaneira mais grave. Os radicais, por exemplo, são tradicionalistas, assim como os conservadores; o que os distinguem é que eles aderem a tradições inteiramente diferentes. Conviria àqueles pós-modernistas que sustentam que os radicais devem abster-se de criticar uns aos outros para não acirrar os ânimos dos reacionários lembrar as limitações de uma política baseada mais no oportunismo do que na verdade, por mais que prefiram o último termo posto entre alarmantes aspas. Se, com efeito, os leitores conservadores se virem apoiando sinceramente a transformação socialista da sociedade depois de lerem este livro, ficarei muito satisfeito.

O aspecto mais pós-modernista deste livro consiste no seu descarado plágio de si mesmo. Embora a maior parte do texto seja original, vali-me de alguns escritos anteriores de minha autoria, que foram publicados nas revistas London Review of Books, The Times Literary Supplement, The Monthly Review, Textual Practice e The Socialist Register. Devo agradecer aos editores dessas publicações a gentil permissão de republicá-los, e espero que nenhum leitor assine todas elas. Dedico também profunda gratidão a Peter Dews e Peter Osborne, que tiveram a generosidade de ler este livro na forma de manuscrito e deram sugestões indiscutivelmente úteis.

Terry Eagleton é o pseudônimo de Thomas Warton, 65, teórico marxista inglês e professor da Universidade de Oxford.

Fonte: EAGLETON, Terry. As ilusões do pós-modernismo. Tradução de Elisabeth Barbosa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 7-9.

Outras obras de Terry Eagleton publicadas no Brasil:
A ideologia da estética, Jorge Zahar Ed., 1993.
Ideologia: uma introdução, UNESP, Boitempo, 1997.
Marx e a liberdade, UNESP, 1999.
Teoria da literatura: uma introdução, Martins Fontes, 2003
A idéia de cultura, UNESP, 2005.

 



X

Você já curte a Fundação no Facebook?