As ilusões do pós-modernismo – Contradições

• Por Terry Eagleton em 29 de junho de 2008

Terry EagletonContradições

A maior contradição do pós-modernismo é um pouco como aquela do velho estruturalismo. O estruturalismo era radical ou conservador? É fácil demais perceber como ele se comportou como uma espécie de tecnocracia do espírito, a penetração final do impulso racionalizante da modernidade no santuário interior do sujeito. Com seus códigos rigorosos, esquemas universais e reducionismo obstinado, ele refletia na esfera do Geist uma materialização já aparente na realidade. Mas isso é só um lado da história. Pois, ao estender à mente a lógica da tecnocracia, o estruturalismo escandalizou o humanismo liberal cuja tarefa era preservar a vida da mente de qualquer redução simplista assim. E esse humanismo liberal foi uma das ideologias dominantes da sociedade tecnocrática em si. Nesse sentido, o estruturalismo era ao mesmo tempo radical e conservador, conspirando com estratégias do capitalismo moderno de uma forma altamente conflitante com seus valores supremos. É como se, ao pressionar até não poder mais um tipo de determinismo tecnológico para a própria mente, ao tratar os indivíduos como meros espaços vazios de códigos impessoais, ele imitasse a maneira com que a sociedade moderna na verdade os trata mas finge que não, dessa forma endossando sua lógica enquanto desmascara seus ideais. “Sistema”, escreve Roland Barthes, “é o inimigo do Homem” ? querendo dizer com isso, sem dúvida, que para o humanismo o sujeito é sempre aquele que é radicalmente irredutível, aquele que vai infiltrar-se pelas fendas de suas categorias e devastar suas estruturas.

Há um tipo parecido de contradição incorporada ao pós-modernismo, que também é simultaneamente radical e conservadora. Uma característica marcante das sociedades capitalistas avançadas encontra-se no fato de elas serem tanto libertárias como autoritárias, tanto hedonistas como repressoras, tanto múltiplas como monolíticas. E não é difícil descobrir a razão disso. A lógica do mercado é de prazer e pluralidade, do efêmero e descontínuo, de uma grande rede descentrada de desejo da qual os indivíduos surgem como meros reflexos passageiros. Mas manter em ação toda essa anarquia potencial requer bases sólidas e uma estrutura política sólida. Quanto mais as forças de mercado ameaçam subverter toda a estabilidade, mais teremos de insistir nos valores tradicionais. Não é incomum encontrar políticos britânicos que toleram a comercialização do rádio mas ficam horrorizados com poemas sem rima. Todavia, quanto mais esse sistema apela para valores metafísicos para se legitimar, mais suas atividades racionalizantes, secularizantes ameaçam esvaziá-los. Esses regimes não podem nem abandonar o metafísico nem acomodá-lo de modo adequado, e por isso estão sempre potencialmente desconstruindo a si próprios.

As ambivalências políticas do pós-modernismo combinam perfeitamente com essa contradição. Podemos arriscar, numa primeira aproximação por alto, que muito do pós-modernismo é de oposição em termos políticos mas cúmplice em termos econômicos. Isto, entretanto, exige uma boa afinação. O pós-modernismo é radical na medida em que desafia o sistema que ainda precisa de valores absolutos, fundamentos metafísicos e sujeitos auto-idênticos; contra essas coisas ele mobiliza a multiplicidade, a não-identidade, a transgressão, o antifundamentalismo, o relativismo cultural. O resultado, na melhor das hipóteses, é uma subversão engenhosa do sistema de valores dominantes, pelo menos no nível da teoria. Existem executivos que ouviram tudo sobre desconstrução e reagem a ela de forma bem parecida com a que os fundamentalistas reagem ao ateísmo. Na verdade, eles estão certíssimos de agir assim, visto que a desconstrução, em suas formas mais politizadas, representa de fato um assalto contra muito do que a maioria dos profissionais de negócios mais amam. Mas o pós-modernismo costuma deixar de reconhecer que o que funciona no nível da ideologia nem sempre funciona no nível do mercado. Se o sistema necessita de um sujeito autônomo no tribunal de justiça ou na cabine de votação, na mídia e nos shopping centers esse sujeito de quase nada lhe serve. Nesses setores, pluralidade, desejo, fragmentação e congêneres são tão nativos para nosso modo de vida como o carvão o era para Newcastle antes de Margaret Thatcher pôr as mãos nele. Muitos profissionais de negócios são nesse sentido pós-modernos naturais. O capitalismo é a ordem mais pluralista que a história já conheceu, sempre transgredindo limites e desmantelando oposições, misturando formas distintas de vida e sempre excedendo a medida. Toda essa pluralidade, é preciso dizer, opera dentro de limites muito rigorosos; mas isso ajuda a explicar por que alguns pós-modernistas sonham avidamente com um futuro híbrido, enquanto outros estão convencidos de que esse futuro já chegou.

O pós-modernismo, em suma, rouba um pouco da lógica material do capitalismo avançado e a volta agressivamente contra seus fundamentos espirituais. E nisso apresenta mais que uma semelhança passageira com o estruturalismo, que foi uma de suas origens remotas. É como se ele estivesse instando o sistema, como seu grande mentor Friedrich Nietzsche, a esquecer seus fundamentos metafísicos, reconhecer que Deus está morto e simplesmente tornar-se relativista. Então, pelo menos, ele pode trocar um bocado de segurança por um pouco de atualidade. Por que confessar tão-só que seus valores são tão precariamente infundados como os de todo mundo? Isso não o deixaria vulnerável ao ataque, uma vez que você só demoliu astutamente qualquer ponto de vista de onde poderia partir alguma ofensiva. De todo modo, o tipo de valores que tem raízes no que você faz, que reflete a crua realidade social e não o pomposo ideal moral, tende a ser bem mais convincente que muita conversa nebulosa sobre progresso, razão e a especial afeição de Deus pela pátria.

Mas para os filósofos pragmáticos está muito bom argumentar dessa forma. Aqueles que carregam o fardo de conduzir o sistema têm consciência de que as ideologias estão em ação para legitimar, e não só refletir, o que você faz. Eles não podem simplesmente descartar esses fundamentos lógicos fastuosos, sobretudo porque muita gente ainda acredita neles, na verdade aderem a eles com mais tenacidade ainda quando sentem o chão tremer sob os seus pés. A mercadoria, com a devida vênia a Adorno, não pode ser a própria ideologia, pelo menos por enquanto. Poderíamos imaginar uma fase futura do sistema em que isso seria verdade, em que ele fez um curso em alguma universidade norte-americana, livrou-se dos próprios fundamentos e deixou para trás toda essa história de legitimação retórica. Com efeito, existem aqueles que alegam que é precisamente isso que está em marcha hoje: que a “hegemonia” não tem mais relevância, que o sistema não se importa se acreditamos nele ou não, que ele não sente necessidade de garantir nossa cumplicidade espiritual desde que façamos mais ou menos o que ele exige. Ele não tem mais de passar pela consciência humana para se reproduzir, só manter essa consciência em permanente estado de distração e contar, para sua reprodução, com seus mecanismos automatizados. Mas o pós-modernismo pertence nesse aspecto a uma época de transição, em que o metafísico, como um fantasma inquieto, não pode nem ressuscitar nem morrer com dignidade. Se ele pudesse deixar de existir, o pós-modernismo sem dúvida morreria com ele.

Preciso terminar, infelizmente, com uma observação sinistra. O pensamento pós-moderno de fim-da-história não antevê um futuro para nós muito diferente do presente, perspectiva que ele curiosamente vê como motivo de comemoração. Mas há de fato a possibilidade de um futuro desses entre vários, e ele se chama fascismo. O maior teste do pós-modernismo, ou no caso de qualquer outra doutrina política, é como ele poderia chegar a isso. O conjunto da sua obra acerca do racismo e da etnicidade, da paranóia de pensar a identidade, dos perigos da totalidade e do medo da diferença: tudo isso, junto com seus insights aprofundados sobre as artimanhas do poder, sem dúvida revelar-se-ia de considerável valor. Mas seu relativismo cultural e seu convencionalismo moral, seu ceticismo, pragmatismo e bairrismo, seu desagrado com idéias de solidariedade e organização disciplinada, sua falta de qualquer teoria adequada de ação política: tudo isso ia depor muito contra ele. No confronto com seus adversários políticos, a esquerda, hoje, mais que nunca, precisa de sólidos fundamentos éticos e mesmo antropológicos: é provável que nada menos que isso nos possa suprir dos recursos políticos de que necessitamos. E, nessa área, o pós-modernismo acaba sendo mais parte do problema que da solução.

Terry Eagleton é o pseudônimo de Thomas Warton, 65, teórico marxista inglês e professor da Universidade de Oxford.

Fonte: EAGLETON, Terry. As ilusões do pós-modernismo. Tradução de Elisabeth Barbosa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 127-130.

Outras obras de Terry Eagleton publicadas no Brasil:
A ideologia da estética, Jorge Zahar Ed., 1993.
Ideologia: uma introdução, UNESP, Boitempo, 1997.
Marx e a liberdade, UNESP, 1999.
Teoria da literatura: uma introdução, Martins Fontes, 2003
A idéia de cultura, UNESP, 2005.



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