Terry Eagleton: Ideologia – conclusão

• Por Terry Eagleton em 10 de novembro de 2008

Terry EagletonTentei neste livro delinear algo da história do conceito de ideologia e desenredar algo das confusões conceituais que o acompanham.  Mas, ao fazê-lo, também preocupei-me em desenvolver minhas visões particulares a respeito da questão, e é para um resumo destas que finalmente nos voltamos.

O termo ideologia tem um amplo espectro de significados históricos, do sentido intratavelmente amplo de determinação social do pensamento até a idéia suspeitosamente limitada de disposição de falsas idéias no interesse direto de uma classe dominante.  Com muita freqüência, refere-se aos modos como os signos, significados e valores ajudam a reproduzir um poder social dominante, mas também pode denotar qualquer conjuntura significante entre discurso e interesses políticos.  A partir de um ponto de vista radical, o primeiro sentido é pejorativo, enquanto o segundo é mais neutro.  Minha própria visão é de que ambos os sentidos do termo têm seus empregos, mas que não os desenredar deu origem a um bocado de confusão.

A visão racionalista de ideologias como sistemas de crença conscientes, bem articulados, é claramente inadequada: deixa escapar as dimensões afetivas, inconscientes, míticas ou simbólicas da ideologia, a maneira como ela constitui as relações vividas, aparentemente espontâneas do sujeito com uma estrutura de poder e provê a cor invisível da própria vida cotidiana.  Mas se a ideologia, nesse sentido, é discurso primariamente performativo, retórico, pseudoproposicional, isso não significa que seja desprovida de um importante conteúdo proposicional. ? ou que as proposições que faz, inclusive as morais e normativas, não possam ser avaliadas quanto a sua verdade ou falsidade.  Muito do que as ideologias dizem é verdadeiro e seria ineficaz se não o fosse, mas as ideologias também têm muitas proposições que são evidentemente  falsas, e isso não tanto por causa de alguma qualidade inerentemente falsa mas por causa das distorções a que são submetidas nas suas tentativas de ratificar e legitimar sistemas políticos injustos, opressivos.  A falsidade em questão, como vimos, pode ser epistêmica, funcional ou genérica, ou alguma combinação das três.

As ideologias dominantes e, ocasionalmente, as de oposição, muitas vezes empregam dispositivos como a unificação, a identificação espúria, a naturalização, a ilusão, a auto-ilusão e a racionalização.  Mas não fazem isso universalmente; na verdade, é duvidoso que se possam atribuir à ideologia quaisquer características invariáveis.   Estamos lidando menos com alguma essência da ideologia do que com uma rede sobreposta de “semelhanças de família” entre diferentes estilos de significação.  Precisamos, então, examinar com ceticismo os vários argumentos essencialistas a respeito da ideologia: o argumento historicista de que é uma visão de mundo coerente de um “sujeito de classe”, a teoria de que é espontaneamente secretada pelas estruturas econômicas da sociedade, ou a doutrina semiótica de que significa “fechamento discursivo”.  Todas essas perspectivas contêm um âmago de verdade mas, tomadas isoladamente, mostram-se parciais e falhas.  A visão “sociológica” de que a ideologia provê o “cimento” de uma formação social, ou o “mapa cognitivo” que orienta seus agentes para a ação, é muitas vezes despolitizadora em efeito, esvaziando o conceito de ideologia de conflito e contradição.

A ideologia em suas formas dominantes é muitas vezes vista como uma solução mítica ou imaginária de tais contradições, mas seria imprudente superestimar seu sucesso em alcançar esse objetivo.  Não é nem um conjunto de discursos difusos nem um todo descozido;  se seu impulso é identificar e homogeneizar, é, não obstante, marcada e desarticulada por seu caráter relacional, pelos interesses conflitantes entre os quais deve manobrar incessantemente.  Ela não é, como certo marxismo historicista parece sugerir, o princípio fundador da unidade social, mas antes tenta, diante da resistência política, reconstituir essa unidade em um nível imaginário.  Como tal, nunca pode ser simples “inefabilidade” ou pensamento negligentemente desconectado; pelo contrário, deve afigurar-se como uma força social organizadora que constitui ativamente sujeitos humanos nas raízes de sua experiência vivida e busca equipá-los com formas de valor e crença relevantes para suas tarefas sociais específicas e para a reprodução geral da ordem social.  Mas esses sujeitos são sempre constituídos conflitiva e precariamente, e, embora a ideologia seja “centrada no sujeito”, não é redutível à questão da subjetividade.  Alguns dos efeitos ideológicos mais poderosos são gerados por instituições como a democracia parlamentar, por processos políticos impessoais mais do que por estados subjetivos do ser.  A estrutura do fetichismo da mercadoria, da mesma maneira, é irredutível à psicologia do sujeito humano.  Nem as teorias psicológicas da ideologia nem as descrições que a vêem como o efeito quase automático das estruturas sociais objetivas estão à altura da complexidade da noção.  De modo paralelo, a ideologia nunca é o mero efeito expressivo de interesses sociais objetivos, mas tampouco são todos os significantes ideológicos “aleatórios” no que diz respeito a tais interesses.  As relações entre os discursos ideológicos e os interesses sociais são relações complexas, variáveis, em que às vezes é adequado falar do significante ideológico como um pomo de discórdia entre forças sociais conflitantes e, outras vezes, como uma questão de relações mais internas entre modos de significação e formas de poder social.  A ideologia antes contribui para a constituição de interesses sociais do que reflete passivamente posições dadas previamente, mas, apesar disso, legisla a existência de tais posições por sua própria onipotência discursiva.

A ideologia é antes uma questão de “discurso” que de “linguagem” ? mais uma questão de certos efeitos discursivos concretos que de significação como tal.  Representa os pontos em que o poder tem impacto sobre certas enunciações e inscreve-se tacitamente dentro delas.  Mas não deve, portanto, ser igualada a nenhuma forma de partidarismo discursivo, discurso “interessado” ou viés retórico; antes, o conceito de ideologia tem como objetivo revelar algo da relação entre uma enunciação e suas condições materiais de possibilidade, quando essas condições de possibilidade são vistas à luz de certas lutas de poder centrais para a reprodução (ou, para algumas teorias, a contestação) de toda uma forma de vida social.  Para alguns teóricos da noção, a ideologia é um modo de discurso social técnico, secular, racionalista, que rejeitou todos os esforços religiosos ou metafísicos de legitimar uma ordem social, mas esse parecer subestima suas dimensões arcaicas, afetivas e tradicionalistas, que podem entrar em contradição significante com seu ímpeto mais “modernizador”.

Nenhum radical que examine friamente a tenacidade e a penetração das ideologias dominantes pode sentir-se esperançoso quanto ao que seria necessário para afrouxar seu domínio letal.  Mas há um lugar, acima de todos, em que tais formas de consciência podem ser transformadas, quase literalmente, da noite para o dia, e esse é a luta política.  Isso não é uma carolice de esquerda, mas um fato empírico.  Quando homens e mulheres, engajados em formas locais, inteiramente modestas de resistência política,  vêem-se trazidos, pelo ímpeto interior de tais conflitos, para o confronto direto com o poder de Estado, é possível que sua consciência política seja definitiva e irreversivelmente alterada.  Se uma teoria da ideologia tem algum valor, este consiste em auxiliar no esclarecimento dos processos pelos quais pode ser efetuada praticamente tal libertação diante de crenças letais.

[EAGLETON, Terry.  Ideologia: uma introdução.  Tradução de Silavana Vieira e Luís Carlos Borges.  São Paulo: Editora UNESP: Editora Boitempo, 1997, p. 193-195]

Terry Eagleton, teórico marxista inglês, é professor de literatura da Universidade de Oxford.

Outras obras de Terry Eagleton publicadas no Brasil:
A ideologia da estética, Jorge Zahar Ed., 1993.
As ilusões do pós-modernismo, Jorge Zahar Ed., 1998.
Marx e a liberdade, UNESP, 1999.
Teoria da literatura: uma introdução, Martins Fontes, 2003.
A idéia de cultura, UNESP, 2005.



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