Malcolm X: uma vida em defesa da causa negra

• Por Maykon Santos em 26 de fevereiro de 2009

Malcolm XEm 19 de maio de 1925 nascia, em Omaha, estado de Nebraska, sul dos Estados Unidos, Malcolm Little. Também conhecido como Al Hajj Malik Al-Habazz, nome mulçumano usado após sua conversão ao islamismo. Homem mundialmente conhecido como Malcolm X.
 
Sua história de vida, que durou apenas 39 anos, se encerrando em 21 de fevereiro de 1965, é uma sintese da história de afro-americanos na América. Uma história daqueles para quem o American way of life ou o American dream nunca esteve em seu horizonte, pois nem pertecencer a sociedade norte-americana lhes era permitido. Uma história que durante seus anos de vida através de muitas lutas passou do sistema de segregação social total para o histórico movimento de direitos civis das décadas de 50, 60 e 70 do século XX.
 
Se as imagens de bairros inteiros com população afro-americana, que tinham perdido tudo após o furacão Katrina de 2004, assustou o mundo e revelou o que as mazelas do capitalismo norte-americano fazem com a população negra, na década de 1920 a situação era muito pior. Para se ter uma idéia, enquanto no Brasil nosso pensamento racista estava transformando a mulher negra em objeto sexual, a famosa mulata. Nos E.U.A. era comum nas três primeiras décadas homens brancos espancarem, lincharem, esforcarem e queimarem homens e mulheres negras pelas ruas de vários estados norte-americanos, principalmente no sul daquele país, em locais públicos com a complascência do estado e acompanhado pela comunidade branca das cidades, que assistia o que ocorria com êxtase. Como se não bastasse, o fato era motivo de orgulho, tanto que era fotografado e enviado em cartões postais para familiares. Este gênero de cartão postal tinha grande aceitação na sociedade norte-americana até ser proibido em fins da década de 1920. Um homem branco que enviou um desses cartões para seu pai assim se expressou “Este é o churrasco do qual participamos ontem à noite meu retrato esta a esquerda com uma cruz em cima dele seu filho Joe”.  A quase totalidade desses cartões pode ser acessada em http://www.withouts anctuary. org/.
 
Filho de pai negro e mãe com pele clara, o Malcolm Little e seus 7 irmãos iriam sofrer todos os preconceitos de uma sociedade extremamente preconceituosa, desigual e racista. Sua infância e adolescência foram marcadas pela violência característica dos guetos pobres norte-americanos, ainda mais após a morte brutal de seu pai, Earl Little, em 1931, violentamente assassinado após um espancamento. Seu corpo foi jogado em uma linha do trem e partido em dois após a passagem do mesmo. O Sr. Little foi mais um negro, entre milhares, a ser assassinado pelo ódio racista da classe dominante branca. Os assassinos, mais uma vez, não foram punidos pelo estado americano complascente com os linchamentos que ocorriam.
 
Assim, sua mãe, Louise Little ficou responsável por sustentar 8 filhos, tarefa praticamente imposível para uma afrodescente em uma sociedade como a norte-americano dos anos 1930. A mãe não suportou a presão e foi internada em um hospital para pessoas com deficiência mental. Após isso, a família foi separada, os dois irmãos mais velhos foram abandonado a própria sorte, pois já não tinham idade para a adoção. Os outros foram adotados por famílias diversas.
 
Malcolm foi morar em Boston após terminar a 8ª série como o melhor aluno de sua classe, demonstrando muito apreço pela leitura e sonhando em se tornar um advogado. Na cidade passou a viver com sua meia-irmã Ella. Durante a adolescência, sua vida foi como a de outros milhares de afro-americanos em uma sociedade que não lhes dava condições mínimas de cidadania. Malcolm teve que começar a trabalhar como sapateiro, dividindo seu tempo entre os estudos ginasiais e o trabalho. Logo, Malcolm aprendeu que nos Estados Unidos da década de 40, estudar e sonhar não era algo para negros. Traficou, roubou e foi preso em 1946 juntamente com seu grande amigo Shorty e suas respectivas namoradas brancas. As mulheres brancas tiveram sua pena reduzida para de 1 a 5 anos, mas Malcolm foi condenado a 10 anos e Shorty a 8.
 
Foi na cadeia que a vida de Malcolm mudou radicalmente de mais um afro-americano que seria oprimido pelo sistema para um dos maiores e conhecidos líderes na luta por direitos civis dos negros nas décadas de 50 e 60 nos Estados Unidos. A chave de sua mudança foi a conversão ao islamismo ocorrida na cadeia. O X vem dessa conversão e significava suas origens étnicas africanas, segundo revelação divina. Malcolm optava, então, por perder seu sobrenome branco, Little, para carregar o sobrenome de sua origem africana.  O agora Malcolm X começou a integrar a famosa Organização da Nação do Islã (NOI). Nos anos finais na cadeia e após a conversão, Malcolm será um leitor feroz, o que o tornará portador de uma grande erudição, que associado ao seu carisma e poder de oratória serão fatores que o farão o homem mais conhecido dos E.U.A. em fins da década de 50 e início da década de 60. Para se ter uma idéia da importância de X, a figura de Malcolm aparecia mais na mídia do que homens como Martin Luther King e John F. Kennedy.
 
Para entendermos o papel do islamismo na vida de milhões de afro-americanos nessa época é necessário compreender o papel que a Nação do Islã dava aos brancos. Segundo esta, o homem branco era o demônio e o responsável por todas as mazelas dos negros, os escolhidos por Alá. Era uma obrigação do negro combater o branco, o infiel. Seus seguidores eram os Muçulmanos pretos (Blacks Muslins). Não é necessário muito esforço para compreender que tal cosmologia se adequa facilmente ao contexto de vida de milhões de afro-americanos.  
 
Entre 1952, quando Malcolm sai da cadeia, e 1963, data em que se afasta da NOI, a organização passa de 500 membros para 30.000. O entendimento do crescimento exponencial da NOI passa por dois fatores principais. O primeiro, o contexto da luta por direitos civis da sociedade norte-americana da época, que tinha várias matizes, desde o pacifismo de Martin Luter King até o radicalismo da NOI e dos Panteras Negras. O segundo, é a importância de X na mesma. Ele se tornou ministro da organização e seu segundo mais importante lider, atrás apenas de  Elijah Muhammad. Sob o seu comando, a NOI fundou mesquitas em importantes estados norte-americamos, como Detroit, Michigam e Nova York. A pauta de luta da NOI era extremanente radical e incluia a condenação da miscegenação racial, a separação total entre brancos e negros, a luta por um estado preto, separado de um habitado por pessoas brancas, a desobediência civil e a luta e a desobediência civil para alcançar seus objetivos.
 
Na década de 60, X começa a se desentender com Elijah Muhammad, que culminará com o seu rompimento com a NOI, em 1964. Após isso, faz sua perenigração a Meca, um fato marcante em sua vida. Tanto que mudará seu nome para Al Hajj Malik Al-Habazz. Ao conhecer outras formas de professar sua fé em Alá, sua visão de mundo se torna muito mais tolerante religiosamente.
 
Ao voltar para os Estados Unidos, funda a Organização da Unidade Afro-Americana, grupo não religioso e não sectário, criado para unir os afro-americanos com claras feições socialistas. X compreende que o problema enfrentado pelos afro-americanos era muito mais complexo do que apenas a cor e a opção religiosa. Era, sim, fruto do desenvolvimento do capitalismo nos E.U.A., em que os afro-americanos estavam no patamar mais baixo da sociedade.
 
Como tantos outros líderes que lutam por transformações, Malcolm se deparou com a morte repentina, sendo assassinado em 21 de fevereiro de 1965, na sede de sua organização. Ele recebeu 16 tiros de calibres 38 e 45.  A maioria deles atinge o coração de X. Ele foi assassinado na frente de sua esposa Betty, que estava grávida, e de suas quatro filhas.   
 
Malcolm X é uma sintese de uma parte do movimento negro nas década de 50 e 60 em três pontos fundamentais: o islamismo, a violência como método para auto-defesa e o socialismo.
 
A religão foi a porta de entrada de X para se questionar sobre os problemas sociais enfrentados pelos negros. Entretanto, com o decorrer de sua vida, percebeu que a questão do negro não era apenas de caráter teológico, e, sim,  uma questão política, econômica e civil de uma sociedade capitalista.

 
Maykon Santos é militante do PSOL e do núcleo do Círculo Palmarino (Santos/São Vicente).



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