Dossiê: A crise

• Por Prensa Latina em 23 de abril de 2009

CriseQuais são os antecedentes da atual crise financeira?

Os especialistas assinalam agosto de 2007 como a data fatídica da economia estadunidense. Foi nesse momento que se insinuou a atual crise financeira, que está vinculada a problemas no setor imobiliário dos Estados Unidos, em particular às hipotecas de tipo “subprime”, ou seja, empréstimos de alto risco,  que incluem devedores sem capacidade comprovada de pagamento ou com duvidoso histórico como tomadores de crédito.

O que qualificaram de insignificante, tomou dimensões globais.  Muitos bancos internacionais fizeram grandes investimentos nesse setor e intercambiaram as hipotecas como instrumento financeiro no mercado. Dessa forma começava a se criar uma borbulha: os bancos emitiram créditos sem respaldo e sobre papeis se criou uma falsa riqueza.

Como uma bolha de sabão, a borbulha estorou e seu efeito dominó arrastou o sistema bancário à atual crise, que põe a nu a inoperância de sua essência e as débeis bases sobre as quais se erigiu o fictício valor criado.

A estrutura do Sistema Financeiro Internacional surgiu em 1945 com a integração econômica, ao se criar o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, e posteriormente o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), antecessor da Organização Mundial de Comércio.

Através dessas instituicões se restauraram os fluxos mundiais de mercadorias e capitais, gerando uma interdependência entre as economias do mundo.

Sob tal estrutura era de se esperar que se garantisse a cooperação monetária mediante o apoio aos Estados membros, para resolver problemas de balanço de pagamentos e o adequado funcionamento do sistema financeiro.

Sem embargo, nunca chegou a funcionar como tal e as crises se repetiram nas últimas décadas.

De 1970 a 1980, ocorreram 112 crises bancárias em 93 países, que deixaram elevadas perdas econômicas, com um custo médio superior a 12,8% do Produto Interno Bruto (PIB) dessas nações.

Uma crise bancária se manifesta quando os ativos praticamente se esgotam, os devedores morosos se situam entre 15 e 20% do total dos empréstimos bancários e resolver esses problemas custa entre 3 e 5% do PIB.

Isso ocorreu em agosto de 2007 nos Estados Unidos, quando se estancou o setor imobiliário e se desencadeou a chamada crise do “subprime” ou das hipotecas de alto risco.

O cenário econômico se complicou com a queda do dólar estadunidense frente às demais divisas, o encarecimento do petróleo e dos alimentos, o que pavimentou o caminho para a atual crise financeira cujas consequências nem os especialistas sabem até onde chegarão.

Em que setores se manifesta a crise?

No setor imobiliário, no qual as pessoas obtiveram créditos sem ter um bom  fiador de respaldo, e nos bancos, que por sua vez especularam com títulos sem valor. Em poucas palavras, os bancos facilitaram empréstimos de alto risco a pessoas que geralmente tinham um duvidoso histórico como tomador de crédito. Isso criou uma cadeia de dívidas que ainda persistem.

Na indústria da informática foi onde soou o alarme ao se desmoronar a borbulha dos negócios chamados “ponto com” ou, melhor dito, a criação de negócios virtuais sem riqueza material.

Essas duas borbulhas empurraram com o efeito dominó o desmoronamento do sistema bancário, setor que viu quebrar instituições centenárias como o Lehman Brothers. Por sua vez,  a crise chegou a outros setores da economia material como:

- Indústria.  Sabe-se que os pedidos nas fábricas estadunidenses caíram 4% em agosto, a contração mais forte nos últimos dois anos. O dado foi divulgado um dia depois que se conhecera igual indicador em setembro, o mais fraco desde a recessão de 2001. Sobressaem os ramos têxtil e automobilístico, no qual se reporta uma queda considerável na venda de automóveis, assim como um encarecimento das matérias primas.

- Agricultura. Os altos preços dos alimentos prejudicam as exportações. Também incidem negativamente o incremento do custo dos insumos, principalmente os combustíveis. Ao que se somam a falta de créditos e a contração no investimento, com prejuízo direto para as atividades agroindustriais.

- Petróleo.  Nessa área sobressai o preço, que chegou a cifras astronômicas, o que pressionou fortemente a atividad extrativa. A isso se agregam as paradas realizadas nos últimos meses na extração do cru, como consequência dos furacões que castigaram a zona do Golfo do México, e a redução da produção na Nigéria, por problemas políticos.

- Comércio.  Nesse setor se registra uma queda substancial na venda de produtos, ocasionada pelo desemprego e,  em consequência, uma diminuição no poder aquisitivo da população, ademais de uma contração em função dos temores do consumidor com o futuro incerto da economia.

Por que a crise bancária?

A desregulamentação do mercado financeiro e a especulação sem límites, que têm sua origem em títulos da economia material, permitiram que se revendessem múltiplas vezes, a preços crescentes, papeis engendrados por outros papeis, sem que os mesmos tivessem uma expressão de valor real, criando à sua passagem uma borbulha que acaba de estourar.

Primeiro se criaram negócios virtuais na Internet, que vendiam supostos ativos futuros, com uma sobrevaloração das posibilidades de criar riquezas; ao se desfazer essa borbulha, os capitais migraram para as hipotecas de alto risco ? subprime ? com as quais repetiram a falida fórmula, criando valores fictícios e super-lucros sem respaldo material.

A falta de liquidez dos devedores subprime rompeu a cadeia especulativa, que arrastou consigo as entidades financeiras involucradas nas operações e provocou a derrubada de muitas delas e a necessária intervenção do Estado em outros casos para ao menos deter uma rápida debacle total.

O setor financeiro e a economia estadunidenses estão num estado deplorável e sujeitos à especulação, como o revelam as dívidas doméstica, nacional e federal.

Os mercados laborais estão frouxos, os salários estão estancados e o desemprego é alto e crescente. Ainda que o repontar do dólar desde seus mínimos recentes aliviou as pressões, é difícil predizer o curso dos preços das matérias primas.

O crescimento econômico dos últimos cinco anos se baseou na borbulha imobiliária, que estourou em 2007. Essa situação debilitou o setor financeiro e está provado que as economias não funcionam sem finanças sólidas.

A atual crise financeira está considerada como a mais intensa e profunda desde a depressão da década de 30 no século passado.

CriseA crise do “subprime” conduz à bancária?

O estouro da borbulha imobiliária insinuou a atual crise e foi desatando capítulo a capítulo os fatos que conduziram à depauperada situação que hoje apresentam as finanças do capitalismo mundial, com os Estados Unidos à frente.

Uma crise econômica é a manifestação mais concentrada, tempestuosa e destruidora das contradições antagônicas do sistema capitalista e essas crises se repetem com uma frequência mais curta.

Em finais de 2007 houve a demostração fiel disso. Antes, de 1973 a 1979, houve uma crise do petróleo, a qual se repetiu no ano passado. Em Wall Street, em 1987, ocorreu a “segunda-feira negra”, com a queda das bolsas.  En 1997, a “crise asiática” estremeceu o mundo ao se depreciar bruscamente o Bath (moeda tailandesa) e, no ano seguinte, o Rublo russo também desmoronou.

Argentina, Brasil e México foram afetados por situações similares no ano passado.

Os estragos causados pela crise do “subprime” (hipotecas de alto risco) tiveram incidência no atual panorama do setor bancário estadunidense e nas instituições financeiras européias.

No Velho Continente não se sabia muito bem que os prestamistas das hipotecas careciam de fundos suficientes para fazer frente aos pagamentos.

Em que consiste o pacote de resgate apresentado por Bush?

O plano de resgate, que já é Lei depois de ser assinado pelo Presidente e aprovado com antecedência pelo Senado e pelo Congresso, constitui a mais forte participação do Estado na economia: quer dizer, uma inesperada virada na política econômica norte-americana aferrada até então ao Mercado como único protagonista, seguindo a escola neoliberal.

O Presidente e o Departamento do Tesouro esperam que com a injeção de 700 bilhões de dólares nos bancos (cifra incrementada para 850 bilhões em suas análises pelo Senado) os Estados Unidos não entre em recessão.

A “Lei de Estabilização Econômica de Emergência de 2008″ ? nome oficial do pacote de 451 páginas ? mantém a autorização dada ao Departamento do Tesouro para comprar créditos de alto risco das instituições financeiras com problemas, mas incorpora maior proteção para os depósitos bancários e aplica uma extensão de descontos fiscais a pessoas e empresas:

1.- O Governo comprará de instituições financeiras créditos impagáveis, os chamados “ativos tóxicos”; para começar, tem para isso um orçamento de até 250 bilhões de dólares. O presidente poderá pedir adicionalmente outros 100 bilhões, mas antes deverão ser avaliados os resultados do primeiro pacote de resgate.

2.- Outros 350 bilhões para o resgate deverão ser aprovados por uma nova lei.

3.- O Governo estadunidense busca criar uma agência que injete fundos nos intermediários financeiros e pedirá em troca participações acionárias que num lapso de 5 anos, dependendo de seu valor, poderiam ser vendidas no mercado.

4.- Aumenta o seguro de depósitos ante a possibilidade de quebra de bancos, que passa de 100 bilhões a 250 bilhões de dólares.  Autoriza uma extensão de rebaixas fiscais para particulares e empresas, em setores como a energia solar e as renováveis.  Estima-se que as rebaixas chegariam a 150 bilhões na próxima década.

5.- O plano limita o salário dos executivos das instituições que se beneficiem do programa de resgate, e reduz significativamente os pacotes de compensação que recebem esses executivos quando são despedidos.

6.- Cria um comitê especial do Congresso para que o Departamento do Tesouro comunique os avanços do programa de salvamento.

7.- O programa inclui o resgate dos ameaçados planos de pensões, governos locais e pequenos bancos, ademais dos grandes bancos de Wall Street.

8.- A FED terá competências para pagar juros sobre as reservas que as instituições financeiras guardam na Reserva Federal, para favorecer maiores depósitos dos bancos em fundos do Banco Central, em vez de levá-los aos mercados de dinheiro, o que por sua vez move a taxa de juros dos fundos federais a um dia.

Os candidatos presidenciais e também senadores Barack Obama e John McCain deram o sim à iniciativa aprovada finalmente pela Câmara de Representantes.

Os legisladores, que basicamente respeitaram as propostas do secretário do Tesouro Henry Paulson, aprovaram iniciativas adicionais para fortalecer o apoio aos contribuintes que pagarão o custo do resgate, estimado já em 850 bilhões de dólares.

CriseQuem são os grandes ganhadores com a crise?

A crise financeira estadunidense levou à quebra dezenas de instituições financeiras no seu caminho, entre bancos de investimento, caixas hipotecárias e caixas de poupança, que tinham até um século e meio de tradição.

Sem embargo, várias instituições financeiras líderes aproveitaram o momento para adquirir ativos a bom preço, fortalecer suas atividades financeiras, dominar mercados e expandir seus serviços.

Citigroup

O maior banco estadunidense compraria as operações bancárias do banco Wachovia Corp, num acordo assistido pela Comissão Federal de Seguro de Depósitos.

O Citigroup adquiriria a maioria dos ativos e passivos do Wachovia, incluindo cinco instituições de poupança, e assumirá a dívida subordinada com o que absorverá até 42 bilhões de dólares de perdas sobre um grupo de empréstimos de 312 bilhões de dólares.

Informações de última hora deram conta de que depois de encerrada a transação, o Wachovia vendia a Wells Fargo, o que produziu uma reação do Citigroup em aberto debate por devorar esta vítima da crise.

Bank of América

Em 15 de setembro, o Bank of América Corp acordou adquirir o Merrill Lynch & Co, numa operação de 50 bilhões de dólares totalmente em ações, ficando com a maior corretagem minoritária do mundo.

Merrill foi duramente atingida pela crise de crédito e amortizou mais de 40 bilhões de dólares ao longo do último ano.

JP Morgan

Esse banco adquiriu em março passado o seu rival Bear Stearns a um preço desvalorizado de dois dólares por ação, uns 236 milhões de dólares, depois que a crise hipotecária debilitara uma das instituições de maior tradição.

O JP Morgan espera que o acordo lhe gere seis bilhões de dólares em gastos por litígios e indenizações.

A recente aquisição permite que o JP Morgan supere o Bank of América como o segundo maior banco dos Estados Unidos, com 2,04 bilhões de dólares em ativos.

Barclays

O banco britânico acordou comprar alguns dos negócios principais de intermediação do banco de investimento estadunidense Lehman Brothers, declarado em bancarrota, por cerca de um bilhão 700 milhões de dólares.

As operações que o Barclays comprará são as do banco de investimento e de mercado de capitais que contam com cerca de 10 mil empregados, segundo um comunicado do banco.

O banco britânico pagará 250 milhões de dólares em efetivo pelos ativos e passivos; ademais comprará o edifício sede do Lehman Brothers em Nova Iorque e dos centros de dados que conjuntamente têm um valor de mercado de um bilhão 500 milhões de dólares.

Santander

O banco espanhol Santander pagará 612 milhões de libras esterlinas (cerca de um bilhão 100 milhões de dólares) pela aquisição da rede de sucursais e o negócio de depósitos do britânico Bradford & Bingley.  O resto deste banco será nacionalizado pelo governo britânico.

Mitsubishi UFJ Financial Group

O Mitsubishi UFJ Financial Group, o maior banco do Japão, adquirirá 21% do Morgan Stanley segundo acordaram ambas as instituições ao pactuar um preço de 9 bilhões de dólares, com o que buscam dar maior confiança aos investidores do banco estadunidense após a queda de ao redor de 50% no preço de suas ações.

Goldman Sachs

Um dos maiores grupos de investimento do mundo está estudando adquirir 50 bilhões de dólares em ativos de bancos estadunidenses afetados pela crise como parte de sua entrada no negócio de banco comercial, segundo disseram executivos do banco ao jornal Financial Times.

O banco estadunidense vai realocar 150 bilhões de dólares dos ativos do grupo em sua unidade em Utah.

O Goldam Sachs e o Morgan Staley informaram por separado que se converterão em grupos bancários com o que se derruba o modelo de banco de investimento. Notícia que foi confirmada pela Reserva Federal (FED, banco central estadunidense) ao anunciar que aceitou que os bancos Goldman Sachs e Morgan Stanley se transformem em holdings de bancos, o que poderia ajudá-los a levar a melhor na atual crise financeira.

CriseO neoliberalismo desmorona com a crise?

A escola neoliberal cravou sua lápide em Wall Street.

Os que apostavam no mercado como eixo da economia e deixavam que as forças cegas da Lei da Oferta e da Procura funcionassem em suas mãos sem regulamentos, controles, supervisões ou outra forma de intervenção do Estado hoje clamam pelo resgate.

A atual crise, prolongamento da imobiliária iniciada nos Estados Unidos, há mais de um ano adquiriu características que permitem compará-la com o crack de 1929, que deu lugar à Grande Depressão de 1930.

Essa situação mereceu já o qualificativo de a maior destruição na história de Wall Street e significa perdas reais de bilhões de dólares, refletidas na riqueza empresarial, petroleira, de bens de raízes, de bancos, de fundos de pensão e de outros setores.

A crise, no dizer de alguns economistas, manifesta o papel do Estado como regulador do mercado, teoria que contradiz a corrente neoliberal. A partir da quebra de importantes e grandes bancos no Mundo, o Estado teve que buscar soluções como a nacionalização para paliar a debacle desse sistema.

A desregulamentação financeira, um dos estandartes do neoliberalismo, não é mais do que a falta de controle sobre a atividade da banca, sob o dogma de que o mercado regula tudo, o que contribuiu para a presente crise financeira.

Simultaneamente, pela primeira vez, confluem várias crises: financeira, ecológica, alimentar, energética e social, entre outras.

A nacionalização de empresas significa a renúncia ao neoliberalismo e o reconhecimento do papel do Estado e da planificação?

Segundo a teoria de Milton Friedman, pai do neoliberalismo, nessas circunstâncias o mercado deve se corrigir a si mesmo com a chamada “mão invisível”, que foi profetizada no século XVIII pelo filósofo escocês Adam Smith, conhecido como “o pai da economia moderna”.

Qualquer distorção, segundo Friedman, é culpa do governo qque não deixa o mercado respirar. Não obstante, agora há uma espécie de consenso tanto na Europa como nos Estados Unidos de que é necessário intervir nas principais praças financeiras, como sucedeu na década de 1930.

Na hora de buscar os culpados pela situação atual, muitos analistas acusam os banqueiros de arriscar mais recursos públicos em busca de maiores lucros.

Mas nesse tipo de crise, os bancos são os agentes da especulação, não a causa. Há que se sinalizar como culpados os governos que aplicaram o neoliberalismo desde décadas atrás.

Outra esquecida escola do capitalismo, encabeçada pelo economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946), asegurava que deviam ser os governos (fator ignorado até então), os que teriam que converter-se em instrumentos econômicos ativos e compensar (através de políticas econômicas adequadas) a insuficiência de investimento privado durante uma recessão, com a redução de impostos e, sobretudo, com o incremento do gasto público.

Keynes pensava que a economia não tendía de maneira automática para o pleno emprego e que não se podia esperar que as forças do mercado fossem suficientes para sair da recessão. Só a atuação do Governo, ? opinaba Keynes ? ao reduzir os impostos ou aumentar o gasto público, poderia conseguir que a economia voltasse a uma posição de pleno emprego. Definitivamente, os governantes têm que garantir uma demanda suficiente na economia para criar e manter o pleno emprego, mas que não deve ser excessiva para evitar que aumente a inflação, argumenta o keynesianismo.

Essa teoria, sob a influência do Crack de 29 e suas consequências, justificava as ações empreendidas na Inglaterra e, muito especialmente, nos Estados Unidos, onde o presidente Franklin Delano Roosevelt havia enfrentado a luta contra a Grande Depressão com sua política de New Deal (Novo Reparto ou Novo Trato).

Tanto Roosevelt como o Congresso dos Estados Unidos aprovaram um programa de medidas econômicas e criaram novos organismos federais para tentar reduzir o desemprego e restabelecer a prosperidade mediante uma série de novos serviços, regulamentos e subsídios.

Foi desenhado com a ajuda do denominado Brain Trust (escritório de especialistas da Universidade de Columbia, que assessorou o presidente especialmente em matéria econômica) e fez do governo do país pela primeira vez o impulsionador da mudança econômica, em contraste com seu tradicional papel passivo de índole liberal.

O presidente John F. Kennedy aplicou esse tipo de medidas para tirar a economia estadunidense da recessão em princípios da década de 1960.

A crise financeira significa a derrocada dos Estados Unidos como superpotência?

Para alguns como o filósofo político John Gray, professor jubilado da London School of Economics, “a era da liderança global estadunidense, que remonta à Segunda Guerra Mundial, acabou… o credo do livre mercado estadunidense se autodestruiu, enquanto que os países que mantiveram um controle geral dos mercados são reivindicados”.

Outros, pelo contrário, negam o apocalipse estadunidense, porque o sistema saiu airoso de provas anteriores. Em tal sentido, se referem à queda de mais de 20% num só dia do índice da bolsa Dow Jones, e à borbulha das “ponto com” que estourou em 2000. Em ambos os casos, os Estados Unidos, agregam, soube levantar-se.

A favor ou contra, o certo é que alguns pensadores neoconservadores reconhecem o ressurgimento de um mundo multipolar.

A esse respeito, Robin Niblett, diretor do centro de investigação britânico Chatham House, apontou que aos Estados Unidos se lhe vê como estando em queda relativa e que ocorreu uma aceleração enorme nessa percepção na etapa declinante do governo de George Bush. A isso se acrescenta o auge de novas potências, o aumento na riqueza petroleira entre alguns países e a diseminação do poder econômico em todo o mundo.

O economista cubano Osvaldo Martínez, diretor do Centro de Estudos da Economia Mundial, com sede em Havana, opina que assistimos à crise mais intensa e profunda do capitalismo desde 1929, e, sem ter um prognóstico apocalíptico, prognostica o fim do neoliberalismo e da supremacia do dólar como moeda de comércio internacional.

O doutor Martínez explicou que pela primeira vez convergem cinco crises: financeira, ecológica, alimentar, energética e social, o que torna difícil o caminho para a solução da crise econômica, tanto nos Estados Unidos como no resto dos países que recebem desde já seus impactos.

Quais são os pontos de contato entre a crise de 1929 e a atual?

1- Incremento do desemprego.

2- Falta de pagamento de créditos privados e entre bancos.

3- Diminuição da liquidez das entidades financeiras.

4- Quebra de bancos.

5- As grandes empresas e bancos clamam pela proteção do Estado.

6- Recessão econômica.

7- Abarca todos os setores econômicos e sociais.

8- Estende-se para a Europa e o resto do mundo.

9- Desenvolve-se uma crise na produção industrial.

10- Renúncia ao liberalismo econômico.

11- Intervenção do Estado para solucionar a crise.

12- Estabeleceram-se as respectivas leis de emergência para restabelecer a atividade bancária e a confiança no sistema financeiro.

13- As políticas de ambos os governos (Bush e Obama) encontraram forte oposição.

14- O Partido Democrata apoiou o New Deal (política para enfrentar a Grande Depressão de 29) do Presidente Roosevelt e também votou maciçamente o plano de resgate financeiro do Presidente Bush.

15- O êxito do New Deal permitiu aos democratas a reeleição de Roosevelt…  A história repetir-se-á?

CriseQue lições deixa a atual crise financeira?

• Assistimos ao capítulo final do neoliberalismo como política econômica e do papel preponderante do mercado e da sua lei cega como regulador.  Impõe-se, portanto, a atuação do Estado na economia seguindo os fios que conduzam com harmonia as atividades das finanças e da produção de bens materiais.

• Viu-se a inoperância do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Por consequência, a globalização neoliberal deverá ceder seu lugar a uma Nova Ordem Econômica Mundial e a uma Nova Ordem Financeira Mundial.

• É preciso renunciar à especulação como instrumento comercial, tendo em conta de que foi a causa da criação de borbulhas de valores fictícios, cujo estouro constitui a essência da atual crise.

• O dólar não deverá continuar no futuro como moeda preponderante na cotização dos mercados internacionais e deverá ser substituído por uma cesta de moedas ou alguna outra fórmula que impeça a influência de uma crise sobre todos os países.

• Reafirma-se o caráter destrutivo do Capitalismo, como sistema, cujas crises cíclicas deixam a grande maioria dos habitantes do planeta na insegurança .

• A integração da América Latina se reafirma como necesidade para a sobrevivência, ademais de considerações culturais, sociais e políticas.  Os países do continente que estão unidos nos pactos regionais estão em vantagem para enfrentar a atual crise.

• Os Tratados de Livre Comércio com os Estados Unidos constituem as correias de transmissão, por excelência, da crise; portanto, seus subscritores estão recebendo a exportação das consequências das negligências cometidas pelo centro do capitalismo mundial e sua política neoliberal.

Tradução: Sergio Granja

Fonte:  Prensa Latina



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